Poucas doenças têm tanto poder de causar pânico entre a população como a meningite meningocócica, principalmente por ser uma doença de evolução rápida, grave, fatal em alguns casos e, ainda, pelo seu potencial epidêmico. É preciso manter a atenção contra a meningite meningocócica durante o ano inteiro. Apesar de ser conhecida como doença típica de inverno, casos e epidemias podem acontecer em diversas épocas, inclusive no verão. Nos últimos quatro anos, surtos de meningite meningocócica do tipo C foram registrados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mais recentemente, foi noticiada a ocorrência de casos no litoral sul de São Paulo, não havendo ainda informações suficientes para caracterizarmos a presença de um surto.
Como se trata de doença grave, o diagnóstico deve ser feito o quanto antes. Por isso, é importante prestar atenção aos principais sintomas: febre, vômitos, dor de cabeça, rigidez da nuca e, nos casos mais graves, manchas vermelhas e hematomas na pele. Em crianças pequenas, também aparecem choro persistente, irritabilidade e abaulamento da moleira. Mas, sem dúvida, prevenir é o melhor caminho. A introdução das vacinas meningocócicas conjugadas contra o tipo C nos calendários oficiais de imunização de vários países representou uma conquista na prevenção das meningites meningocócicas, especialmente para crianças nos primeiros anos de vida, o grupo mais atingido pela doença.
O Brasil licenciou as vacinas contra meningite em 2002, mas seu uso ainda hoje está restrito às clinicas privadas, aos centros de imunobiológicos especiais e ao bloqueio de surtos em crianças. O primeiro local a introduzir a vacina como rotina foi o Reino Unido, a partir de 1999, vacinando em menos de 1 ano mais de 15 milhões de pessoas. Com isso, ocorreu uma dramática redução da incidência de doença meningocócica pelo sorogrupo C em todas as faixas etárias. Posteriormente, Espanha, Portugal, Alemanha, Holanda, Austrália, Canadá e outros países também introduziram estas vacinas na rotina, com resultados bastante animadores.
A bactéria causadora da doença é o meningococo, sendo que os tipos B e C são responsáveis por mais de 90% dos casos de doença meningocócica no Brasil. A doença atinge todas as faixas etárias. Porém, a maior incidência ocorre em crianças menores de 5 anos. Em 2007, no estado de São Paulo, foram registrados 911 casos, 18% em menores de 1 ano e quase 50% em menores de 5 anos. No mesmo ano, o tipo C foi responsável por 75% dos casos identificados de meningite meningocócica no Estado. A letalidade da doença em nosso meio ainda é bastante elevada, situando-se em torno de 20%.
No Brasil, a doença meningocócica é endêmica, com ocorrência periódica de surtos epidêmicos em vários municípios. Em 2006, de um total de 28.500 casos notificados de meningites em nosso país, 3.142 foram confirmados como doença meningocócica, com 640 óbitos (20% dos casos). É Importante destacar que nos últimos anos a incidência da doença tem se mantido estável, aproximadamente 2 casos para cada 100 mil habitantes, mas a prevenção ainda é a melhor arma.
(*) Marco Aurélio Sáfadi é professor assistente de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, coordenador do Serviço de Infectologia Pediátrica do Hospital São Luiz e membro da Comissão Permanente de Assessoramento de Imunizações da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
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